Há uma década e meia enviamos jovens talentos ao Festival de Cannes. Parte da comitiva vai para vivenciar o grande evento anual do mercado publicitário e parte chega para competir. A experiência já modificou a trajetória profissional de quase duas centenas de criativos brasileiros. Siga e conheça histórias dos bastidores desta emblemática jornada
O consultor Emmanuel Publio Dias era um frequentador assíduo do Festival Internacional de Publicidade de Cannes (Cannes Lions), desde 1989. Em 1994, percebeu uma movimentação de jovens de vários países da Europa, em especial, de holandeses, o que lhe chamou a atenção.
“Procurei saber, com os organizadores, o que era aquele movimento e descobri que eram jovens europeus que estavam participando do festival sob condições especiais. Eles haviam ido de ônibus para lá, pagaram uma taxa de inscrição mais barata e tiveram também descontos nos hotéis”, lembra Dias. “Perguntei em Cannes se poderíamos organizar algo do gênero no Brasil e os dirigentes do Festival disseram que sim”, conta.
Aí surgia o embrião do que seria o Young Creatives Brazil, que passou a se chamar Young Lions Brazil em 2008, para seguir as novas diretrizes do Cannes Lions. Segundo conta Emmanuel, o Brasil foi o primeiro país da América Latina a organizar uma comitiva de jovens rumo a Cannes, que já recebia criativos de outros países sob condições especiais desde 1992.
Já na primeira edição, em 1995, Dias conseguiu apoio da DM9DDB e das editoras Globo e Abril para enviar jovens criativos brasileiros ao Festival. Foram selecionados 14 profissionais, dentre mais de 40 que enviaram portfólio para seleção.
Dentre os candidatos, estava um jovem de 19 anos chamado Wilson Mateos, hoje diretor de criação da Neogama/BBH. Na época, ele tinha acabado de ser contratado como redator júnior da FCB e “já tinha umas duas pecinhas no Anuário [do CCSP]”.
“Quando vi aquele anúncio no jornal prometendo levar jovens criativos para Cannes, com passagem, inscrição e hotel na faixa, na hora pensei que fosse uma coisa do tipo Amway. Ou então uma daquelas pegadinhas: ‘Você só paga o material didático’. Mas eu não tinha nada a perder. Eram tempos românticos. A propaganda passava por mudanças fantásticas, pois uma nova geração de criativos estava chegando ao poder”, relembra Mateos.
O criativo conta que aquele anúncio de convocação “era um pouco misterioso, um pouco genérico”. “Pedia portfólio, comprovante de tempo de profissão, comprovante de premiações, caso existissem, redação em inglês, cartas de recomendação de ‘pessoas ilustres’ do mercado ou qualquer outra coisa que referendasse o candidato. E não cobrava nada, nem taxa de inscrição”, explica.
“Desconfianças à parte, juntei um batalhão de papel: carta do CCSP confirmando meus prêmios, carta de recomendação do meu chefe. Na dúvida, meti no bolo uma carta padrão do CEO mundial do grupo FCB me dando parabéns por um ano de contratação. Valia tudo”, diverte-se Mateos.
O diretor de criação da Neogama conta que a notícia de que havia sido selecionado veio por telefone. “Não teve festa, não teve pompa nem circunstância. Foi direto ao ponto: ‘Wilson, você vai para Cannes’. Simples assim. Só não comemorei mais porque ainda era difícil acreditar que aquilo não era enrolação. Assim, tive a honra de fazer parte da primeiríssima turma de Young Creatives do Brasil”.
Chegando a Cannes, os 14 criativos da turma ficaram em polvorosa, num misto de ansiedade e empolgação. Com o agito, alguns pequenos “detalhes” passaram despercebidos. Entre eles, a escolha da dupla que representaria o Brasil na competição. “Como era nossa primeira experiência, nem sabíamos que deveríamos indicar uma dupla para entrar na Young Creatives Competition”, confessa Publio Dias.
Ricardo Chester, sócio e diretor de criação da Babel, também estava lá e lembra perfeitamente de como foram escolhidos os representantes para a competição. “A grande curiosidade que ocorreu no meu ano é que chegamos em Cannes e somente lá lembramos que alguém deveria disputar a Young Competition. Isso minutos antes da eventual dupla receber o briefing”.
Chester continua: “Não havia nada escrito que indicasse como seria o procedimento. Então, nos reunimos debaixo da escada do Palais para decidir como seria a escolha. Não houve consenso. Havia seis ou sete interessados. Houve uma discussão intensa e o único jeito foi apelar para o velho e bom sorteio”, descreve. “Eu não me credenciei para participar. Achei que já havia sido premiado pelo fato de ter ingresso, avião e hotel com tudo pago naquela grande maravilha que é o primeiro Festival de Cannes na vida de todo criativo. Felizmente, desde a segunda edição da competição, a dupla passou a sair escolhida do Brasil”.
Mateos também não esquece do “criterioso” processo de escolha dos representantes, naquele primeiro ano. “Por ser o primeiro ano do YCB, foi tudo de improviso. A dupla que representou o país [Alda Marcantônio e Rogério Lima] foi praticamente escolhida no 2 ou 1. Mas aquela turma de pioneiros mostrou para o mercado que o projeto não era tapeação, não era balela. Nos anos seguintes, a disputa por uma vaga começou a ser cada vez mais acirrada e, ser Young , mais do que a viagem e a parte ‘fun’, virou item importantíssimo no currículo de qualquer jovem criativo”, acredita o diretor de criação da Neogama.
“Sobre a viagem em si, foi tudo muito divertido. Mesmo eu estando com apenas 19 anos e tendo sido barrado em quase tudo. Tentei usar um terninho mal ajambrado para disfarçar, mas não adiantou. Fico feliz de ter participado do início dessa história. Fico triste ao lembrar o quanto aquele terno era feio”, finaliza Mateos.
Um ano depois, em 1996, o país enfrentava uma séria crise econômica (já ouviram essa história antes?), e mandamos apenas oito jovens para participar da competição. Entre os talentos estavam Alexandre Okada, atual vice-presidente de criação da McCann Erickson, Luiz Sanches e Sophie Schoenburg, hoje diretor de criação e redatora da AlmapBBDO, respectivamente. A criativa, aliás, será nossa representante no júri da categoria Film, no Cannes Lions, esse ano.
“Os jovens que iam a Cannes começaram a perceber o quanto a experiência era importante e o quanto eles voltavam melhores e com mais possibilidades profissionais”, observa Dias, acrescentando que o critério para a escolha dos jovens não é a simples análise do portfólio. “Não escolhemos pastas, mas sim pessoas que têm possibilidade de ir ao Festival e voltar como profissionais melhores”, diz. “E temos acertado nessa escolha. Muitos dos ex-Youngs são atualmente vice-presidentes de criação, donos de agência, jurados do Festival do Anuário”, cita. “Para saber quem serão os diretores de criação de amanhã, basta checar a lista dos Youngs de hoje”, aposta.
Segundo os cálculos de Publio, de cada três Leões conquistados pelo Brasil, em dois há um ex-Young na ficha técnica. “Seis ex-Youngs já foram jurados em Cannes e, contando com a Sophie, que será esse ano, a soma sobe para sete”.
Nesses 15 anos, o Brasil se destacou principalmente na área de Cyber da Young Lions Competition. Emmanuel conta que, das oito edições de Cyber já realizadas em Cannes, o Brasil conquistou ouro em nada menos do que cinco e prata em uma. No ano passado, o país fincou um tricampeonato, ao ganhar, pelo terceiro ano seguido, ouro na categoria.
Fernando Campos: “Ter sido escolhido como Young Creative foi a maior injeção de auto-estima que eu recebi ao longo de toda a minha carreira."
Os vencedores foram Marcelo Mariano Dias (Jesus), atualmente diretor de arte da DM9DDB, e Fabiano de Queiroz Silva (Tatu), redator da McCann Erickson, que desenvolveram peça com a meta de mobilizar a população do planeta a ajudar, por meio da doação de um dólar, programa da Unicef que leva água limpa para crianças necessitadas, principalmente em locais onde o abastecimento é crítico.
“Competir em Cannes foi muito emocionante. Como a gente chega no sábado e só recebe o briefing na segunda, vivemos três dias de expectativa total. O fato de o Brasil ter ganhado ouro nos dois anos anteriores também foi um fator que pesou em cima de mim e do Tatu. Queríamos representar bem, mas tínhamos em nossa cabeça que não vencer poderia ser ruim para nós”, pontua Jesus.
“A competição em si foi muito frenética. O fato de o Brasil sempre ir bem nos faz sentir como ETs na sala de briefing. Todo mundo olha para as duplas brasileiras de forma diferente. E, para piorar, não sendo o inglês a nossa língua nativa, tivemos que prestar atenção redobrada no briefing, que foi passado oralmente para todos”, lembra o criativo.
Depois que a dupla recebeu as instruções, Jesus conta que ambos ficaram criando e produzindo um protótipo no hotel, das 17 horas até de madrugada. “Na real, a primeira ideia que surgiu foi a escolhida, o que de certa forma foi pior, pois ficamos cinco horas buscando uma outra melhor e ela nunca chegou”, conta.
“Um fato engraçado foi que, entre o briefing e a ideia, o Tatu encontrou duas moedas jogadas na rua, que, por coincidência ou não, seriam a base da nossa ideia. Aí fomos ligar o notebook no hotel para ‘layoutar’ e programar a peça e descobrimos que a tomada era diferente e não ligava. Então, ainda tivemos que achar em Cannes uma loja de adaptadores”, diz. “No meio da noite, o Tatu não aguentou a ansiedade e foi andar na praia. O cara estava tão ansioso que não conseguiu dormir direito. Não tínhamos certeza de que a ideia era boa, e não queríamos perguntar para todo mundo, porque naquela altura não íamos conseguir ter outra”.
Jesus conta ainda que, apesar da pressão, eles conseguiram produzir direitinho e acabaram o trabalho umas quatro horas antes. “Na hora em que foram anunciados os vencedores, o Tatu não apareceu, pois perdeu a hora. Depois, no momento da entrega dos prêmios, no Palais, o Tatu deu um pulo da escada e acabou capotando. O que de certa forma foi bom, porque, depois disso, todo mundo sabia quem a gente era e vinha nos cumprimentar”, diverte-se Jesus.
“Resumindo, foi algo anormal essa semana em Cannes, algo que nunca tinha vivido. Passamos pela preocupação e nervosismo dos primeiros dias da competição, e pela alegria e o entusiasmo da vitória. A delegação de 2008 foi bem camarada, comemorou com a gente e fez festa em Cannes. Profissionalmente também foi muito bom, pois acabou divulgando meu trabalho e abriu novas possibilidades para minha carreira”, conclui o criativo.
O dupla de Jesus, Tatu, acrescenta que fazer parte do projeto era uma das suas metas profissionais, porque sabia a visibilidade que isso proporcionaria. “E confesso que já pude sentir na pele isso, pois fiz parte, esse ano, do júri do Festival do 34º Anuário do CCSP. Incentivo a todos os jovens profissionais a participar do projeto Young Lions. É a grande oportunidade que todo profissional precisa para deslanchar no começo da carreira”, complementa.
Em 2007 (ano anterior à vitória de Jesus e Tatu), além da dupla brasileira que abocanhou ouro em Cyber, outra levou bronze, em Press. Em 2006, ouro em Cyber. Em 2005, a dupla de Press ficou com bronze. Em 2003, nossa dupla conquistou ouro em Cyber e bronze em Press. O ano de 2002 marcou o primeiro ouro para os jovens brasileiros em Cyber. Em Press, o primeiro ouro veio em 2001. Também em 2001 conquistamos prata em Cyber.
Esse ano, o Young Lions Brazil levará 12 jovens profissionais a Cannes. Para a seleção, os organizadores do projeto avaliam a capacidade de “comunicação global” de cada candidato, como explica Publio Dias. “Nosso mercado está cada vez mais internacionalizado. Uma ideia deve ser compreendida em qualquer parte do mundo”, pontua.
A edição de 2009 traz mudanças na nomenclatura das categorias do YCB. Criação, por exemplo, passou a se chamar Art Directors/Copywriters; Planejamento virou Planning; Mídia recebe agora o nome de Contacts.
Até o ano 2000, só havia a categoria Press na competição dos Young Creatives, em Cannes. Em 2001, foi criado o capítulo Cyber. Em 2006, Media e, no ano seguinte, Film. Este ano, foi introduzida a categoria Integrated e, em seguida, cancelada. Ficou para 2010.
“No Brasil, começamos com Print e Planejamento (que não tem competição em Cannes até hoje), já em 1995. Cyber, em 1999. Film, em 2003. Media, em 2006. E, desde 2005, temos Titanium. Ou seja, quase sempre antecipamos as competições oficiais”, vangloria-se o pai do projeto no Brasil, Emmanuel Publio Dias.
Os Youngs da primeira edição:
Alda Marcantônio
Alexandre Grilo
André Lima
Camila Bezerra
Denis Kakazu Kushiyama
Fernando Campos
Hércules Florence
José Raimundo Chust Padilha
Mara Regina de Barros
Marina Campos
Ricardo Chester
Rogério Lima
Wagner Tamanaha
Wilson Mateos
Os jovens que venceram em Cannes:
Cyber
Washington Theotonio - Prata – 2001
Thiago Zanato - Ouro - 2002
Sergio Mugnaini – Ouro - 2003
Domenico Massareto – Ouro - 2006
Felipe Lima e Diego Oliveira – Ouro - 2007
Marcelo Mariano Dia (Jesus) e Fabiano de Queiroz Silva (Tatu) – Ouro – 2008
Print
Guga Ketzer e Marco Aurélio - Ouro – 2001
Ana Carolina Reis e Felipe Lucchi – Bronze - 2003
Caio Cassoli e Icaro Doria - Bronze - 2005
Leandro Lourenção e Leandro Cacioli – Bronze – 2007
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