Nesta edição, um diretor de cena que planta palmeiras, embora seja são-paulino roxo, e um ultramaratonista que chega a correr 90 quilômetros numa tacada só e, nas "horas vagas", encara a desafiante missão de criar para marcas como Ford.
Já em 1843, o Brasil foi descrito por Gonçalves Dias como terra que “tem palmeiras onde canta o sabiá”. Pois o diretor de cena Paulo Gama não deixa os versos de Dias caírem no vazio e mantém há alguns anos uma plantação de palmeiras, que conta atualmente com quase 700 espécies.
Diretor de cena da Tamborim Filmes, Gama, hoje com 53 anos, desde os 10 mantém uma relação próxima com a natureza. Ele ia passar as férias em Arujá, no sítio dos avós, e os acompanhava cuidando do jardim e plantando flores. “Eu gostava muito de ir para o sítio. A partir daí, comecei a ter um contato mais forte com a terra”, relembra Gama. Na adolescência, a correria da cidade grande o afastou temporariamente do verde e o aproximou dos números e da arte. Ele estudava engenharia para seguir os passos do pai, e, à noite, dedicava-se à escola de cinema. “Nessa época, também fazia a escola de teatro Macunaíma”, lembra.
Gama também, nessa fase, dedicou-se ao surf e ao windsurf. Disputou e ganhou torneios, conheceu vários países e teve até uma fábrica de pranchas de surf. Seu pai tinha um sítio em Porangaba, interior de São Paulo, e, em 1987, depois de um período dedicado só ao mar, sua segunda esposa insistiu e eles foram até a cidade interiorana. “Eu achava aquele sítio do meu pai árido, só havia pasto. Mas a minha esposa gostou e me incentivou a fazer algo por lá”. Ele decidiu construir um jardim botânico na propriedade. Começou a visitar jardins botânicos de várias cidades, pesquisar, e percebeu que seria muito difícil viabilizar o projeto, tamanha a variedade de espécies. Decidiu então optar por apenas um grupo, o das palmeiras – tipo de árvore da qual já gostava – para plantar no local.
Depois da morte do pai, em 1990, Gama começou a se dedicar ainda mais ao plantio das palmeiras. “Passei a viajar muito atrás de boas sementes, a fazer intercâmbio”, conta. Atualmente, sua plantação recebe visitas de pessoas de todo o Brasil e de fora do país. “Para mim, plantar palmeiras é uma terapia ocupacional”. Gama é membro da IPS (International Palm Society), associação norte-americana que reúne plantadores de palmeiras e cujos integrantes têm um encontro marcado no Brasil, no início de 2010.
Quando questionado sobre se o fato de plantar palmeiras o ajuda a ser um melhor diretor de cena, Gama responde que não acredita em conhecimentos compartimentalizados, mas sim em conhecimentos harmoniosos entre si e aplicados como um todo. “Fellini adorava Botânica. Muitos pintores, como Monet, conheciam Botânica e aplicavam seu conhecimento de forma global”, cita. “Quando eu estudava engenharia eu a execrava, porque me achava um artista. Hoje, posso perceber que a engenharia me ajuda a fazer um filme, por exemplo. Se você deixar, todas as coisas podem ser harmoniosas entre si, não acho que deva haver uma departamentalização do conhecimento”, defende. “Não consigo desvincular uma coisa da outra. E todas essas coisas estão sintonizadas com o planeta”, pontua. “Quando o ser humano se especializa, se torna uma pessoa menos perceptiva”, analisa o diretor, que finaliza nos adiantando que atualmente está escrevendo um longa-metragem, sem, contudo, revelar detalhes sobre o projeto.
Já o diretor de criação Fabio Brandão, da JWT, há sete anos começou a treinar corrida por 30 minutos diários. “Antes, eu fazia ginástica e uma ou outra atividade física, mas nunca levei a sério. Eu dava aquela corridinha, para limpar a consciência da feijoada que tinha comido no fim de semana, sabe?”, relembra. “Em junho de 2002, comecei a treinar com um grupo, apresentado por Keka Morele (diretora de arte da F/Nazca) e não parei mais”.
Aquele cara que praticava esportes para ficar mais leve só na consciência não existe mais. Atualmente, Brandão treina todos os dias da semana, pela manhã. “Acordo 15 para as seis e vou para o Parque do Ibirapuera ou para a USP. Treino não apenas correndo, mas também nado, pedalo, faço fortalecimento muscular, fisioterapia”, enumera.
Já em 2002, quando começou a levar a sério a prática esportiva, o criativo participou da São Silvestre e não sentiu muita dificuldade na prova. “Foi mais diversão”. No ano seguinte, participou da maratona de Atenas (mais de 40 quilômetros) e continuou se inscrevendo em provas maiores. “Não ia para competir, ia para participar, mesmo. Com um objetivo à vista, os treinos ficam mais interessantes, porque há uma meta”, revela.
A meta de Brandão foi se ampliando. E muito, por sinal. Ele participou, em 2007, de uma ultramaratona, correndo 89 quilômetros na África do Sul. A prova, chamada Comrades, inicia-se em Durban e os competidores – cerca de 12 mil - seguem até Pietermaritzburg, numa trajetória que conta com longos aclives e declives.
Brandão correu durante todo o percurso levando uma pequena pochete, onde carregou "coisinhas" para se alimentar e hidratar, como castanhas, água e refrigerante. “Gosto de tomar Coca-Cola enquanto corro. Dá para comer até pizza, cachorro-quente, tudo isso correndo. Mas é preciso preparo e muito treinamento, claro”, afirma. “Às vezes, os participantes têm que parar para fazer xixi, mas tem que ser coisa bem rápida. E isso já deve ser previsto durante os treinos. O atleta tem que conhecer o corpo e se organizar”.
A Comrades é um mega acontecimento na África do Sul, conforme destaca Brandão. A TV local transmite a corrida o tempo todo. “Na véspera da prova, eu e meu treinador estávamos comendo uma macarronada num restaurante e um sul-africano que não conhecíamos chegou ao nosso lado e perguntou se participaríamos da ultramaratona. Eu disse que sim, a pessoa me cumprimentou e continuamos comendo. Quando fomos pagar a conta, nos disseram que já estava paga. Aquele sul-africano que nem conhecíamos havia pago. Ele depois me disse que eu iria fazer algo muito difícil e que queria demonstrar sua admiração por isso. A Comrades realmente é muito valorizada na África do Sul”.
Os corredores terminam a prova quase que invariavelmente mancando e os cidadãos “comuns” cumprimentam, cheios de orgulho, os “herois”, pela coragem e força de terem enfrentado os longos 90 quilômetros. “No aeroporto, a menina da companhia aérea pegou minha passagem e perguntou se eu havia participado da ultramaratona. Quando eu disse que sim, ela me falou que tinha uma surpresa. Me tirou da classe econômica e me passou para a executiva. A prova tem muita tradição no local e os sul-africanos têm orgulho de quem participa”.
Para Brandão, o fato de se dedicar à corrida não influencia muito no seu ofício de criador. “Mas me ajuda a ‘desestressar’. Acho importante ter uma atividade que não tenha nada a ver com o trabalho”, conclui.
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